por Wanderley Moraes
Há algo profundamente errado quando quem deveria fiscalizar o poder passa a cortejá-lo. Quando os vereadores, representantes eleitos do povo para defender o interesse público, transformam seus mandatos em balcões de pedidos e favores, o equilíbrio da democracia local colapsa.
O vereador não é — ou não deveria ser — um mero despachante, um intermediário de pequenos serviços. Sua função não é pedir patrolamento de estradas ou troca de lâmpadas é garantir que o dinheiro público seja usado com honestidade e eficiência, mas, nas câmaras municipais, o que mais se vê são discursos repletos de “solicitações” e “requerimentos”.
Seu dever é o de fiscalizar, de buscar incessantemente a transparência e dar voz a quem os elegeu, e quando ele troca essa missão por uma lista de solicitações ao prefeito, abre mão da sua autoridade e entrega o poder que o povo lhe deu. Poucos analisam contratos, questionam gastos, pedem auditorias ou denunciam irregularidades. Afinal, quem vive de pedir favores não pode se dar ao luxo de fiscalizar quem os concede. E é no silêncio conveniente que se instala a impunidade.
Essa inversão de papéis gera um círculo vicioso e perigoso: o vereador, ao depender do prefeito para executar seus pedidos, deixa de fiscalizá-lo com rigor. Torna-se um refém político. E o prefeito, sentindo-se confortável, age sem ser questionado, multiplicando decisões que, muitas vezes, passam longe do interesse coletivo. O resultado é uma Câmara silenciosa, cúmplice por omissão e cada vez mais distante da moralidade.
E não vamos esquecer do espetáculo das emendas parlamentares. Que é sim, extremamente importante, mas também, é quando muitos vereadores transformam o ato de pedir recursos em uma vitrine política. As promessas são anunciadas com fotos e discursos de gratidão, como se o dinheiro fosse uma dádiva pessoal — e não recurso público, proveniente de impostos. O pior é que, muitas vezes, essas emendas nunca chegam. Ficam no limbo das promessas políticas. E mesmo assim, o marketing está feito: o vereador aparece como “articulador”, o deputado ganha visibilidade, e o cidadão continua na espera.
O vereador que fiscaliza não é inimigo do prefeito, mas aliado da democracia e sua verdadeira grandeza está em ter coragem de dizer “não”, na coragem para investigar, cobrar e denunciar — ainda que isso lhe custe simpatias.
No fim, fiscalizar é um ato de coragem e requer independência, ética e compromisso com a verdade — não com o poder. O vereador que cumpre seu papel incomoda, porque rompe com a lógica da troca, com o jogo do “me ajuda que eu te ajudo”. Mas é esse incômodo que move a democracia e que protege o cidadão.
Quando o fiscal se cala, a cidade adoece. Mas quando o povo desperta e cobra, há esperança de cura. Afinal, todo poder emana do povo.



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