por Wanderley Moraes
Conta-se que, em um vale cercado por montanhas altas e férteis, existia uma cidade chamada República. Para evitar abusos, seus fundadores decidiram dividir o comando do vale entre três grandes guardiões: o Leão das Leis, a Águia da Justiça e o Touro da Administração. Cada um tinha uma função clara e limitada, e juraram, diante dos outros animais, jamais ultrapassar as cercas que delimitavam seus domínios.
O Leão, forte e eloquente, era responsável por criar as regras do vale. Rugia em praça pública, prometendo agir sempre em nome da coletividade. A Águia, de visão aguçada, sobrevoava os conflitos e dizia a última palavra quando surgiam disputas. Já o Touro, incansável e pragmático, executava as tarefas do dia a dia, cuidando dos celeiros, das pontes…
Durante muito tempo, o equilíbrio funcionou. Quando o Leão exagerava no rugido, a Águia o lembrava dos limites. Quando o Touro avançava demais, o Leão ajustava as regras. E os animais, atentos, cobravam de todos.
Mas, com o passar das estações, algo mudou.
O Leão começou a rugir menos pelos outros e mais para os próprios interesses. Descobriu que, se falasse bonito o suficiente, poderia confundir os animais menores e aprovar regras que o favorecessem. Passou a trocar favores com o Touro, oferecendo normas sob medida em troca de conforto e silêncio.
A Águia, por sua vez, cansada de voar contra ventos fortes, decidiu pousar com mais frequência nos galhos mais altos. De lá, via menos o chão do vale e mais os banquetes oferecidos pelos poderosos. Seus julgamentos tornaram-se lentos para os amigos e severos para os inimigos e os fracos, sempre justificados por discursos técnicos que eram difíceis para os menores contestar.
O Touro, percebendo a fragilidade dos outros dois, deixou de apenas executar. Usava a força do trabalho e o controle dos recursos para impor sua vontade, certo de que o Leão escreveria depois uma regra para justificar o que já havia feito, e de que a Águia encontraria um modo elegante de não enxergar o excesso.
Assim, as cercas que separavam os limites dos três nobres guardiões foram sendo derrubadas, não por um grande ataque, mas por pequenos acordos diários. O vale continuava funcionando, é verdade, mas apenas para alguns. Os animais ainda ouviam discursos, viam decisões e assistiam a obras, mas sentia, na prática, que algo estava errado.
Até que um velho Sabiá, ignorado por não ter força nem posição, passou a cantar sempre a mesma melodia: “Quando os guardiões se protegem entre si, quem perde é o vale”. No início, riram dele. Depois, tentaram silenciá-lo. Mas a canção se espalhou.
A fábula não termina com uma revolução espetacular nem com heróis salvadores. Termina com um aviso simples: a corrupção dos poderes não nasce apenas do crime explícito, mas da normalização dos desvios, da conivência elegante e do esquecimento de quem, afinal, deveria ser servido.
Toda semelhança com a realidade não é coincidência. É advertência.












