*por André Hees
As eleições de 2026 são as mais disruptivas de todos os tempos, com o uso intensivo de inteligência artificial, inovação que nos coloca diante de um avanço tecnológico comparável à descoberta do fogo ou à energia elétrica.
Uma nova revolução industrial, só que muito mais rápida: as instituições não estão conseguindo acompanhar essa evolução vertiginosa, perdendo cada vez mais credibilidade. Está em curso no mundo todo, portanto, uma grande transformação institucional, em função dessa nova sociedade digital: a questão é se essa transformação será pacífica ou violenta, se será reformista, disruptiva ou autoritária. O que vem por aí? Uma nova humanidade?
Essas foram algumas das reflexões do Seminário Reboot de comunicação política, realizado em Brasília no início de março, que reuniu centenas de profissionais da área, entre eles João Santana, que já ganhou 8 eleições presidenciais em 5 países, incluindo eleições de Lula e Dilma, e agora está com ACM Neto; Emerson Saraiva, que tem 38 anos de estrada e já participou de 300 campanhas, e Felipe Nunes, autor de Brasil no Espelho e diretor da Quaest Pesquisas.
Sempre houve na história esse descompasso entre a evolução tecnológica e as instituições, mas nunca de forma tão dramática. As instituições dependem de estabilidade, a tecnologia produz instabilidade de forma contínua: estamos na era das redes sociais, da IA e da computação quântica. Parlamentos, partidos, tribunais e sistemas de governo criados há 200 anos não dão conta de traduzir e atender os anseios atuais.
Cada vez mais as pessoas se interessam menos por política. Nas eleições presidenciais de 2022, o nível de abstenção foi de 20%, ou um em cada cinco eleitores. Nas eleições municipais de 2024, no segundo turno, o nível de abstenção chegou a 29%, quase um terço. Os dados são do TSE, que já manifestou preocupação com esse cenário.
O descrédito das instituições fará surgir uma reinstitucionalização? Uma nova ordem, com novas normas, direitos e estruturas?
No momento, temos instituições desenhadas para sociedades industriais, de um tempo analógico de comunicação massiva unidirecional, com ciclos informativos mais lentos e fronteiras nacionais relativamente estáveis, observando conceitos como soberania e autodeterminação dos povos. Isso está ruindo de forma veloz, com a desorganização da ordem internacional construída no pós-guerra, num ambiente de revolução digital e comunicação direta de líderes com eleitores – ou seguidores, o que favorece a criação de realidades paralelas em bolhas incomunicáveis, desafiando o próprio conceito de verdade factual.
Como estabelecer uma agenda prioritária com uma nação dividida em dimensões distintas, sem consensos mínimos?
Em temos históricos, estamos talvez diante de uma transição comparável à da ordem medieval para o Estado moderno, que desaguou nas democracias de massa do século 20, que agora podem estar no fim de um ciclo. No Espírito Santo, em particular, temos um ingrediente adicional, que é o fim do ciclo de 24 anos de Hartung e Casagrande. Será a maior virada das últimas duas décadas no Estado, um período em que evoluímos em todos os indicadores sociais, fiscais e econômicos.
E qual o nosso papel nisso tudo? Pude acompanhar o seminário em Brasília, e uma das melhores palestras foi a de João Santana. Ele observou que a IA já está sendo amplamente utilizada na comunicação política: ela ajuda no desenvolvimento de hipóteses estratégicas corretas, a partir de leitura de cenários; na distribuição de conteúdos segmentados e na ampliação da abrangência das mensagens. Também acelera a produção criativa, a distribuição do conteúdo e a avaliação dos resultados – e favorece a criação de fake news.
A comunicação política sempre foi a grande intermediária entre tecnologia e política. O primeiro passo deveria ser o uso crítico da IA.
“Devemos usar nossa expertise para convencer os governantes e a sociedade da necessidade de uma regulação inteligente e correta da IA. Nada substitui a boa mediação humana. Tudo substitui a má mediação humana”, observou Santana.
De volta às possibilidades históricas, no cenário global, podemos ter um ajuste institucional gradual, no melhor dos cenários. Ou uma ruptura política forte, com novas formas de populismo e autoritarismo e uma polarização crescente, ou ainda uma crise sistêmica, seguida de reconstrução, mais ou menos como nos pós-guerra.
No Brasil, de forma mais imediata, a disputa poderá ser pautada pela segurança, a maior preocupação dos eleitores, pela percepção da economia no bolso do consumidor e pelas repercussões incertas sobre o caso Master, além do imponderável de todo pleito. Será uma eleição animada.
*André Hess é jornalista e consultor em comunicação
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