Era um velhinho, sei disso porque também sou um. Eu tinha a impressão de que já o havia visto em algum lugar. Hoje, tive a certeza, e vários fatores contribuíram. Primeiro, a roupa era igual, tipo calça de brim, paletó caqui, botinas e o bigodinho, esse sim, já havia me chamado a atenção desde a primeira vez ali no consultório do posto de saúde.
Sim, eu estava ali, porque era o dia do meu preventivo cardíaco e acho que o do velhinho também. Mas o que me assombrou foi o comportamento do velhinho, meu colega de idade e de exames. Impaciente desde a chegada, quando uma pessoa lhe ofereceu um lugar para sentar-se ele recusou rispidamente.
Depois de meia hora, enquanto as funcionárias atarefadas procuravam atender a demanda de cada um, o senhorzinho resolveu reclamar com elas, em voz um pouco alta, de que não podia ficar ali de pé o dia todo.
As moças disseram, educadamente, que logo logo ele seria atendido, ao que ele respondeu que elas falavam aquilo pra todos e ele não era criança (antes fosse)… Nessas alturas, todos prestavam atenção nele e parece que isso o irritou mais ainda. Então, saiu pisando duro como militar em ordem unida, dizendo que ia tomar uma providência.
Não sei se por influência das reportagens de jornais dessa semana, falando sobre os conflitos que um outro velhinho (este americano), de vasto topete amarelo, estava causando mundo afora ultimamente, e, aí sim, eu consegui ligar as minhas impressões a um outro personagem.
O velhinho em questão parecia aquele alemão de bigodinho ridículo de um século atrás, que provocou uma grande guerra envolvendo o mundo todo. Faltou-me ar. Meu coração, que já tem uns remendos, acelerou os batimentos.
Se não precisasse muito da consulta, teria vazado dali, com medo de que o senhorzinho voltasse com um porta-aviões ou uma esquadrilha de caças e mandasse bombardear o posto de saúde.
Mas não precisou, pois logo o sujeito voltou de cabeça baixa, com uma senhorinha o empurrando e dizendo pra ele não abrir mais a boca, pois ela demorou quase um ano pra marcar aquela consulta e ele não ia sair dali sem consultar com o doutor.
Nessas alturas, pensei comigo mesmo na falta que faz essa senhorinha lá na Casa Branca, pra enquadrar aquele sujeito que tem bagunçado as repartições públicas de todo o mundo. Mesmo porque, a única mulher de quem ouvi falar que causou uma guerra, segundo Homero, foi Helena de Tróia; e foi por amor, não por petróleo.












