Pe. José Carlos Ferreira da Silva*
Ninguém veio ao mundo para ganhar nada. Viemos ao mundo para dar vida. No começo essa ideia parece estranha. A gente cresce ouvindo o contrário. Estude para ganhar. Trabalhe para ganhar. Esforce-se para ganhar. Como se a vida fosse uma espécie de grande recompensa esperando no fim de cada esforço.
Mas, olhando com calma, não é bem assim que as coisas funcionam. Ninguém chega aqui com garantias. Não existe promessa de facilidade, de reconhecimento ou de aplauso. A vida não entrega prêmios apenas porque existimos. O que ela entrega é tempo. E tempo é matéria-prima. Com ele, cada pessoa constrói alguma coisa.
Alguns dão vida através do cuidado. São aqueles que acolhem, que escutam, que ajudam quando ninguém está olhando. Outros dão vida criando: escrevem, ensinam, plantam, constroem, inventam caminhos onde antes havia só silêncio.
Há também quem dê vida com gestos pequenos. Um conselho na hora certa. Uma palavra que evita uma desistência. Um sorriso que muda o clima de um dia inteiro. Nada disso aparece em medalhas.
Dar vida não é sobre grandes feitos. É sobre presença. É sobre aquilo que deixamos acontecer ao nosso redor simplesmente porque existimos e escolhemos participar do mundo.
Quando alguém planta uma árvore, quando alguém educa uma criança, quando alguém estende a mão a quem caiu, ali a vida continua. Não porque alguém ganhou alguma coisa, mas porque alguém decidiu oferecer algo de si.
No fundo, esse é o verdadeiro sentido de estar aqui. Não acumular recompensas, mas multiplicar vida. No fim das contas, o que permanece não é aquilo que recebemos. É aquilo que ajudamos a nascer, crescer ou recomeçar no caminho de alguém.
*Membro da Academia Cachoeirense de Letras

















