*Pe. José Carlos Ferreira da Silva [1]
A vida, quando quer ser generosa, presenteia a gente com amizades que duram. Não são laços apressados, desses que surgem nas redes sociais ou nas conveniências do trabalho. São vínculos que atravessam o tempo, as fases, as conquistas e os silêncios. Com o amigo jornalista Basílio Marchado foi assim.
Nossa amizade não se limita a afinidades. Vi Basílio amadurecer, formar família. Celebrei o casamento dele. Batizei o filho. Estive presente nos dias de festa — e nos dias em que nem havia festa, só a vida acontecendo. Como, por exemplo, quando ele ainda estava anestesiado, depois de uma cirurgia delicada. E ele também esteve comigo nas horas em que a simples presença dizia tudo.
Com Basílio, aprendi que amizade boa é aquela em que se pode falar de coisas delicadas, admitir incertezas sem medo de parecer frágil. A gente se escuta, se consulta, se respeita. E se entende — até no silêncio.
Foi dele que ouvi uma frase que guardo até hoje. Na verdade, era da mãe dele, dona Sônia Coelho, mulher de sabedoria direta e certeira: “Existem lugares que devemos frequentar somente para manter a exposição da figura.”
Na hora, sorri. Depois, entendi.
Tem ambientes em que a nossa presença não muda nada, mas a ausência é notada. É como dizer “ainda estou aqui”, mesmo sem entusiasmo, só porque há vínculos que se respeitam assim. Nem tudo é sobre o que sentimos — às vezes é sobre o que representamos para os outros.
Nem todo lugar exige vontade. Nem toda presença é pelo prazer de estar. Às vezes, a gente vai porque importa marcar presença — reafirmar o afeto, o compromisso, a história. Não por formalidade, mas porque existe um pacto implícito entre pessoas que se importam.
Saber contar com os amigos é isso: confiar que haverá alguém ao lado quando a vida escurece. Mas também é ser esse alguém. Estar onde se espera que você esteja. Manter a figura, sim — não por vaidade, mas por respeito.
A amizade com Basílio é dessas que não se medem em datas, mas em presença. Em escuta e em gesto. Em acolhimento sem alarde. Em presenças que não pedem explicação. Porque, no fim das contas, o que permanece não é quem esteve em todas as festas — é quem nunca saiu da história.
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[1] Padre José Carlos é autor do livro Feridas Invisíveis: a realidade do sofrimento psíquico em padres e pastores decorrente da prática pastoral – Editora Dialética.










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