Por Guilherme Nascimento
Em um mundo atravessado por algoritmos, afetos líquidos e promessas digitais, lancei minha primeira obra literária voltada ao público adulto: Entre Pix e Promessas. O evento aconteceu no sábado, 21 de junho, pela manhã, na Casa Roxa Cultural, com entrada gratuita e uma programação rica em arte, crítica e celebração da diversidade.
Uma obra necessária sobre o amor nos tempos do ultracapitalismo
Depois de emocionar o público infantojuvenil com os livros Amadé Ayé e Curumim Yby — que apresentam, de forma poética e didática, os orixás e divindades indígenas brasileiras —, mergulhei agora nas contradições do afeto em tempos digitais.
Entre Pix e Promessas é um livro corajoso. Com contos, prosas, poemas e análises críticas, o autor capixaba revela como o capitalismo é capaz de atravessar até os sentimentos mais íntimos — do romance ao desejo, do toque ao abandono.

É sobre amor, mas é sobre afeto atravessado por estrutura. É sobre solidão, pertencimento e o quanto o dinheiro penetra até nas dinâmicas mais humanas da vida cotidiana.
O livro percorre experiências de pessoas negras, LGBTQIAPN+, com deficiência, com corpos dissidentes, e de diferentes gerações, revelando a pluralidade das formas de amar — e de se ferir — no interior do Brasil.
Da solidão à arte: a história por trás da capa
A capa da obra tem uma origem tão sensível quanto simbólica. Em meio a uma conversa sobre afetos e solidão LGBT, o arquiteto, desenhista e curador Vinícius Martins — parceiro de longa data da Casa Roxa — rabiscou espontaneamente no meu caderno uma ilustração intensa, labiríntica e repleta de códigos visuais.
A imagem virou presente. Depois, virou capa. E, por fim, virou conceito gráfico de toda a obra, que foi ilustrada integralmente por Vinícius. Os desenhos foram feitos à mão e posteriormente manipulados digitalmente, combinando o traço humano à linguagem da cultura digital contemporânea.
Programação do lançamento: arte, debate e celebração
A abertura do evento foi conduzida por Bárbara Pérez, presidenta da Academia Marataizense de Artes e Letras, que mediou uma roda de conversa sobre literatura capixaba, autoria local e a importância de narrativas que nascem da periferia, especialmente no contexto das relações humanas digitalizadas.
Em seguida, o artista e criador digital Bruno Mota — jovem LGBT, negro, com corpo dissidente —conduziu uma oficina-papo sobre cultura virtual, manipulação digital e representatividade nos interiores do Brasil. Bruno é referência na criação de ilustrações digitais e peças audiovisuais com foco em inclusão, arte e identidade.
O encerramento foi protagonizado por Cláudia Voltz, drag queen interpretada pelo artista cênico Tainan Gratival, com uma performance poética e provocativa de lip sync — exaltando o poder da arte queer como expressão política, afetiva e estética.
Além disso, o público pôde participar de uma leitura coletiva, adquirir o livro autografado (R$ 69,00) com marcador de página autoral e conhecer de perto os bastidores de uma obra que nasceu do cotidiano, da escuta e da coragem de dizer.
O valor de R$ 69,00 foi uma provocação simbólica e bem-humorada sobre erotismo, prazer e autonomia dos corpos dissidentes. Arte é trabalho. E todo trabalho precisa ser valorizado.
Produção cultural com identidade e compromisso
Este projeto é realizado pelo Ponto de Cultura Casa Roxa Cultural, coletivo comunitário localizado em Marataízes, com recursos da Secretaria da Cultura do Espírito Santo, por meio do Edital nº 11/2023 – Produção e Difusão de Obras Literárias (Funcultura).
A Casa Roxa agradece à fiscal Lara Espíndola, pelo acompanhamento sensível e comprometido durante todo o processo, e parabeniza o Secretário de Estado da Cultura, Fabrício Noronha, e o Governador Renato Casagrande pelo compromisso com o fomento às artes e à diversidade cultural nos territórios capixabas, sobre tudo no interior.
Porque nenhuma promessa vale mais que a liberdade de amar
Entre Pix e Promessas é mais que literatura. É território, é denúncia, é carinho, é ancestralidade e é revolução. No coração da Foz do Itapemirim, entrego uma obra potente, sensível e urgente — que nos lembra, com poesia e coragem, que nenhuma transferência vale mais do que uma conexão verdadeira.










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