por Guilherme Nascimento
Não é uma questão de gosto pessoal. Não é sobre preferir colunas coríntias ou janelas amplas, texturas rústicas ou linhas retas. Este não é um debate sobre estilos — é sobre o desaparecimento do sentido. O que está em jogo não é uma polêmica estética, mas uma crise cultural silenciosa, visível em cada esquina lisa e muda das nossas cidades.
Vivemos num mundo onde as coisas deixaram de contar histórias. Os prédios, os objetos, os logotipos, as ruas — tudo foi despido de narrativa, de intenção simbólica, de memória. A ornamentação, que um dia foi vista como forma de transmitir alma às coisas, virou sinônimo de excesso, futilidade, atraso. Desde o século XX, com o modernismo funcionalista, aprendemos a repetir que “menos é mais”. Que o ornamento é crime. Que o belo é supérfluo. Que o útil basta.
E assim, criamos um mundo útil.
Mas útil para quê, se ele já não nos comove?
Antigamente, até os postes de luz e os bancos de praça eram pensados com uma espécie de orgulho cívico. Um amor pela cidade, uma vontade de oferecer ao outro algo mais do que o necessário. Os bancos da esfinge em Londres, por exemplo, não foram feitos apenas para sentar — eles homenageavam a chegada das Agulhas de Cleópatra em 1878. Eram, ao mesmo tempo, utilidade e monumento. Contavam uma história. Davam à cidade um corpo com memória.
Hoje, em contraste, temos bancos que não dizem nada. Esquinas que não lembram ninguém. Fachadas que não possuem identidade. E logotipos de empresas que não evocam sua origem, apenas sua pressa.
Essa é a tragédia silenciosa da nossa era: construímos um mundo funcional, mas amnésico. Um mundo onde os encaixes nas portas não importam mais, porque ninguém vai vê-los. Um mundo onde até as cabines telefônicas perderam sua majestade. Onde tudo deve ser “imediatamente digerido”, sem exigir do olhar qualquer permanência.
E não se trata de nostalgia ou tradicionalismo.
É que a perda dos ornamentos revela algo mais profundo: a perda do próprio sentido.
As fachadas góticas contavam milhares de histórias. E talvez o problema seja que nós já não temos mais nada para contar. Ou pior: já nem tentamos mais contar.
Cidades antigas eram moldadas organicamente, como organismos vivos — curvas, becos e praças surgiam da experiência humana coletiva, não de plantas genéricas. Cada canto era a cicatriz de um tempo, de uma escolha, de um sonho. Cada detalhe era sinal de que alguém, um dia, se importou.
Hoje, os espaços nascem prontos, planejados por cima, em série, para serem econômicos, rápidos, “eficientes”. Mas o que é eficiência sem encantamento? O que é uma cidade sem símbolos, senão uma paisagem funcional para almas cansadas?
E não se trata de odiar o minimalismo. O minimalismo é belo quando é intencional, meditativo, simbólico. O que se critica aqui é o vazio disfarçado de leveza, a pressa travestida de estética, o empobrecimento emocional normalizado como virtude moderna.
Talvez a verdade seja dura: já não colocamos esforço nos detalhes porque talvez não tenhamos mais sentido para lhes fornecer. Perdemos não só o hábito de ornamentar, mas a fé de que isso importa. De que o mundo merece mais do que o básico. De que a beleza é uma necessidade espiritual universal, como disse Roger Scruton — e ignorá-la nos transforma em desertos ambulantes.
E ainda há tempo. Ainda podemos devolver voz às esquinas. Ainda podemos fazer com que um banco fale, que uma esquina acolha, que um poste celebre. Ainda podemos acreditar que até o menor detalhe tem valor — não porque alguém verá, mas porque somos nós que o fizemos. Porque um mundo belo não é sinal de luxo.
É sinal de cuidado, pertencimento e sanidade coletiva.
E, no fundo, talvez o que o mundo mais precise hoje…
…é de ornamentos.










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