Amo ter vivido em um tempo de transição, e não é apenas saudosismo. É um misto de saudosismo e de deslumbramento com o novo, com o imponderável, com a quase absurda sensação de um novo caminho para as Índias, mesmo sabendo que não fui eu o piloto dessas embarcações.
Eu era ainda criança, lá pela metade do século XX, e ganhei um um avô postiço lá na roça, bastante corcunda, mas muito ativo. Rezava quebraduras, espinhela caída, dedo destroncado, fazia sinapiso de alho (ardia muito), responsava objetos perdidos, curava “gôgo” de galinhas, asma, bronquite com “simpatias”, e entre tantas coisas ainda castrava os animais do sítio e curava os umbigos dos mesmos.
Não sei se tinha horas vagas, mas ainda encontrava tempo pra fazer peneiras, arreios, pilão de madeira, moer milho no moinho d’água, tirar mel das abelhas, fazer rapadura de cana e procurar os ninhos de galinhas que botavam ovo no mato.
Nas férias, onde ele punha a botina eu colocava meu pezinho de criança atrás. Ele gostava muito de mim, embora me visse apenas uma vez por ano, nas férias escolares, e ficava encantado por eu ser criança e saber ler. Assim era meu vozinho corcunda.
Uma vez me confidenciou que ouviu, no enorme rádio de pilhas sobre a cristaleira, que uns sujeitos haviam chegado à lua. “Mas como?”, perguntava ele, se a lua hora estava em um lado, hora estava em outro e havia dias que nem aparecia. Esse pessoal da “Voz do Brasil” deve estar louco.
Fiquei surpreso, pois ele parecia saber tudo e não acreditava que o homem havia chegado à lua, embora eu tivesse certeza disso.
Senti saudades dele semana passada ao mostrar para minha neta, com vocação interplanetária, alguns vídeos da missão Ártemis que estava no espaço. Me peguei então prometendo a ela que veríamos juntos a missão retornar para pousar na lua em 2028. Reencarnei meu vô pra minha netinha meio astronauta, pedindo a Deus que renovasse meu visto de permanência por aqui, mesmo com o mundo todo bagunçado como esse que estamos vivendo.


















