Por Guilherme Nascimento — Casa Roxa Cultural
Se uma pessoa se identifica como trans e quer ser chamada e reconhecida da forma como ela se vê — por exemplo, como uma mulher — e isso não me prejudica em nada, por que eu não respeitar essa pessoa?
Esse é o ponto central da minha reflexão.
Se faz bem para alguém viver de acordo com a sua própria identidade, eu respeito.
Se eu não concordo, eu não me coloco nesse lugar, não faço comigo. Simplesmente vivo a minha vida. Mas isso não me dá o direito de acusar, atacar ou julgar quem se define como tal.
A identidade de uma pessoa não se resume apenas a um órgão biológico. Ela também envolve o coração, a mente e o sentir. Quando alguém se sente de uma forma e nasce com um órgão biológico de outra, pode haver um profundo desalinhamento interno. Isso pode levar ao sofrimento, à depressão e até ao suicídio.
É biológico? É espiritual? É influência da criação familiar? A verdade é que ninguém sabe explicar tudo com absoluta certeza. Mas existe algo que já deveria estar muito claro para qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade e consciência: se alguém se autorreconhece em determinada identidade de gênero, essa pessoa deve ser respeitada, porque isso não afeta a vida do outro.
Também é importante lembrar que o debate sobre os direitos das mulheres não pode ser tratado de forma rasa. Quantas mulheres já estiveram no parlamento e votaram contra pautas fundamentais para as próprias mulheres, como a distribuição gratuita de absorventes e outras políticas públicas importantes?
Ao mesmo tempo, Erika Hilton sempre esteve à frente de pautas em defesa de muitas mulheres e de grupos historicamente vulnerabilizados. Então, por que tanta resistência? Por que atacar antes mesmo de observar as atitudes?
Ela ainda nem começou plenamente seu papel como presidenta da comissão. O mais justo, o mais sensato e o mais democrático é julgar as atitudes, os posicionamentos e os resultados, e não parâmetros preestabelecidos pela biologia, pela Bíblia ou por qualquer outro critério usado para negar a dignidade de alguém.
E há algo ainda mais grave nesse debate.
O que deveria realmente incomodar não é o fato de uma mulher trans querer ser reconhecida como mulher ou ocupar um espaço de representação. O que deveria incomodar são os dados de violência, as agressões, as torturas, os assassinatos e a exclusão que essa população enfrenta todos os dias no Brasil.
Todos os dias, pessoas trans são violentadas, humilhadas, torturadas ou mortas.
A cada hora, pessoas da comunidade LGBTQIA+ sofrem algum tipo de violência, discriminação ou ataque.
São esses dados que deveriam mobilizar os debates públicos. São esses números que evangélicos, cristãos, católicos, umbandistas e tantas outras pessoas de fé deveriam discutir com mais seriedade, humanidade e responsabilidade. São esses alertas que deveriam preocupar gestores públicos, deputados, representantes da sociedade e lideranças políticas.
Não faz sentido que o centro da discussão seja uma pessoa trans e o debate girar em torno de ela merecer ou não ser reconhecida como mulher, ou se deveria ou não ocupar determinado cargo. Isso é lamentável.
Isso revela falta de estudo, ignorância e hipocrisia.
Essa insistência em debater a existência de pessoas trans, enquanto tanta violência real acontece todos os dias, é a cara de um Brasil triste, atrasado e adoecido, que a gente precisa superar.
Nós somos um país múltiplo, diverso e plural. E talvez a gente ainda permaneça tão subdesenvolvido em muitos aspectos justamente porque continua preso a debates desumanos, superficiais e ultrapassados, enquanto questões realmente urgentes seguem sendo empurradas para debaixo do tapete.
No fim das contas, a convivência em sociedade exige algo simples, mas poderoso: respeitar a dignidade das pessoas e julgar cada indivíduo pelas suas atitudes.






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