Por Guilherme Nascimento — Casa Roxa Cultural
Todo ano é igual: basta a alta temporada dar os primeiros sinais e uma avalanche de novos lugares surge pela cidade. Brotam marcas, perfis no Instagram, cardápios vistosos, slogans sedutores. O verão vira palco de uma disputa intensa — não apenas por clientes, mas por atenção, por cliques, por relevância.
Mas, na prática, o que chega à mesa diz muito sobre o que acontece nos bastidores.
Recentemente, esperei uma hora por um lanche que prometia costela defumada, queijo derretendo e salada fresca. O que chegou foi o oposto: uma carne industrial sem vida, um queijo inexistente e uma salada que parecia ter desistido de si mesma. A pressa da temporada atropelou o cuidado básico, o respeito mínimo.
E essa experiência não é isolada.
Tenho visto uma nova tendência: empreendedores abrindo três marcas diferentes, três perfis, três cardápios — tudo saindo do mesmo cubículo, com a mesma equipe exausta. O discurso é bonito: “cada marca tem um padrão de ingrediente”. A realidade? Ganância disfarçada de inovação. A qualidade se dilui, o cuidado evapora, e o cliente vira coadjuvante.
Essa lógica transborda para outros setores:
É dono de supermercado abrindo farmácia;
gente acumulando negócios sem aprimorar o que já tem;
e todo mundo mirando o lucro rápido da estação —
mas quase ninguém investindo o ano inteiro em capacitação, estrutura e Qualidade Real.
O resultado aparece no prato, mas começa muito antes dele.
Começa na falta de políticas públicas que formem microempreendedores.
Na ausência de treinamentos consistentes para trabalhadores.
Na desvalorização do serviço.
No improviso como regra.
No “jeitinho” que se normaliza.
E numa fiscalização que só vê o que quer ver.
Não é uma carreta do SENAI passando uma vez por ano que resolve.
A gente precisa de algo mais profundo:
leis municipais sérias,
formações continuadas,
programas permanentes,
fiscalização de verdade,
e uma mentalidade coletiva que entenda que qualidade não nasce por milagre — ela é construída.
E, acima de tudo, existe um ponto que quase ninguém fala:
o amor pelo que se faz.
Quando o trabalhador perde o amor, a comida perde a alma.
Quando o empreendedor perde o amor, o negócio perde o rumo.
Quando a cidade perde o amor pelo próprio serviço, perde o brilho.
Por isso, fica o alerta — e o convite:
não coma em qualquer lugar.
Observe. Questione. Valorize quem faz com cuidado.
A qualidade que chega ao seu prato é reflexo direto
do respeito ao processo,
do trato com o trabalhador,
do investimento na formação
e do amor no fazer.
Alta temporada não deveria ser sinônimo de pressa, ganância ou improviso.
Deveria ser oportunidade de mostrar o melhor que sabemos fazer.
E isso só existe quando existe amor pelo trabalho —
porque, no fim, esse amor sempre aparece.
No sabor, no atendimento, no detalhe, no capricho.
Ou na sua ausência.







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