Preciso ir para lá mas estou enrolado no meu novelo, vivendo aprisionado em meus costumes e quereres. Seguro e instalado, gosto daqui. Mas, agradecido, percebo que preciso ir.
Quero desamarrar os nós e abandonar os hábitos costumeiros. Sem governo e sem saber para onde, preciso ir. Vou aventurar novos caminhos, calejar os pés por estradas desconhecidas e sangrar o coração que pulsa acomodado.
Preciso ir para lá. Quero ver o que eu nunca vi, ouvir o que nunca escutei, tocar o que nunca toquei, cheirar outro perfume e comer em outra mesa. Não quero mais a “mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores e o mesmo jardim”.
A formalidade previsível, toda igual, me desinstala. Os costumes cotidianos escravizam e apequenam. Sem cartas marcadas, preciso ir. Vou me despencar, esburrachar, sem ter à “mamãe perto de mim”. Olharei adiante, sem saber para onde.
A vida conformada quer me prender aqui e não me deixa ir para lá. Sem ser multado, vou passar pelo radar vigilante e irei para lá. Depois de caminhar longa distância, vou deitar minha vida cansada no chão e repousar.
Fecharei meus olhos iluminados e enxergarei o escuro com liberdade. Sem fardos, apresentarei meu nada diante de tudo. Pela manhã, acordarei ensolarado, me olharei no espelho e escutarei o Sol vigilante e companheiro me dizer: – Bom dia, Marcelo! Sorridente, responderei: – Bom dia, Sol!
“A ciência da abelha, da aranha e a minha, muita gente desconhece” (João do Vale e Luiz Vieira).


















